Matéria Atemporal // Timeless Matter
Do solo para o lar, transformado pelo toque e pelo fogo. O processo de transformação da matéria que a terra nos dá, do solo argiloso em objectos é algo quase tão antigo como a humanidade. Desde cedo percebemos a possibilidade de transformar esta terra em algo sólido, que se torna tão essencial para o nosso dia a dia. De um carácter utilitário que é ainda fundamental, a cerâmica é cada vez mais um suporte de expressão artística que se afirma no contexto da arte mundial e nacional.
Usando o espaço como contexto inicial, partimos na exploração do que é a cerâmica, quais as formas e funções que podem tomar e como é que este simples material pode ser levado ao limite da sua composição e da sua funcionalidade. A zona da Mouraria, em particular o local onde nos encontramos, a Travessa dos Lagares, foi um lugar de extrema importância para a produção e comercialização da cerâmica em Lisboa. Desde a época medieval que aqui se juntavam os melhores artesãos, beneficiando de um ambiente multinacional e multicultural e de troca de técnicas e ideias para evoluírem na sua produção, passando, depois, esse conhecimento a novas gerações. Hoje em dia, esta troca de ideias e culturas mantém-se quando não se intensifica - Lisboa, a verdadeira cidade global, continua a ser o ponto de encontro do mundo - e resulta num enquadramento único de criatividade, partilha e inovação, reflectido de formas muito diferentes nos três artistas apresentados nesta exposição. Em diálogo com peças medievais e modernas provenientes da Mouraria encontradas pelo Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) em escavações na zona e em outras áreas de Lisboa, as obras contemporâneas apresentam-nos uma conexão entre passado e presente, um olhar respeitoso do que foi e uma proposta arrojada do que poderá ser.
As formas orgânicas, etéreas e estranhamente familiares das peças de Jéssica Ilfu-Soi iniciam a transição do quotidiano para o espiritual. Mais próximas de um artefacto divino de uma esquecida religião ancestral, ou até mesmo de uma civilização milénios mais avançada, as peças de Ilfu-Soi provocam um diálogo entre o físico e o onírico que nos faz questionar a própria essência do tempo.
As experimentações de Pedro Dionísio trazem-nos de novo a um plano mais terreno mas não menos evocativo. Trabalhando com materiais diversos, Dionísio testa os limites da cerâmica expondo-a aos elementos e integrando outros materiais orgânicos - folhas, pedras - num testemunho da sua resiliência e capacidade de transformação. As suas peças confundem-se com os fragmentos encontrados no local mas mantêm a sua frescura e tenacidade, num diálogo entre passado e futuro que se adivinha eterno.
Se as obras de Ilfu-Soi e Dionísio têm algo de intemporal em si, as obras de Ana Leonor Pinto são uma explosão de contemporaneidade, completos produtos do seu tempo. Ou serão? Os coloridos e vistosos bolos parecem à primeira vista celebrativos, felizes e deliciosos. Mas quanto mais olhamos, mais vemos os sinais de decadência, da sua futilidade oca. Sem conteúdo, resta-lhes a aparência. Nesta humorística mas cortante crítica a uma sociedade mais preocupada com parecer do que ser, Pinto reflecte a fragilidade da vaidade humana, nesta época como em todas as outras atrás.
Cada um com uma linguagem própria e processos únicos de trabalhar forma e conteúdo, estes três jovens artistas apresentam-nos um diálogo entre um material milenar e o mundo actual.
A tradição cerâmica encontra-se viva, presente e em muito boas mãos.
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Born solely from the home, transformed by touch and fire. The process of transforming matter that the earth gives us — from clay soil into objects — is something almost as ancient as humanity itself. From early on, we recognised the possibility of transforming this earth into something solid, which becomes so essential to our daily lives. From its fundamentally utilitarian character, ceramics is increasingly becoming a medium of artistic expression that is asserting itself within the context of both world and national art.
Using space as an initial context, we set out to explore what ceramics is, what forms and functions it can take, and how this simple material can be pushed to the very limits of its composition and functionality. The Mouraria district — and in particular the place where we find ourselves, Travessa dos Lagares — was a site of extraordinary importance for the production and trade of ceramics in Lisbon. Since the medieval period, the finest craftsmen gathered here, benefitting from a multinational and multicultural environment of exchanged techniques and ideas that allowed them to advance their craft, passing that knowledge on to new generations. Today, this exchange of ideas and cultures endures — and indeed intensifies — as Lisbon, the true global city, continues to be the meeting point of the world. The result is a unique framework of creativity, sharing, and innovation, reflected in very different ways in the work of the three artists presented in this exhibition. In dialogue with medieval and modern pieces from the Mouraria — uncovered by the Lisbon Centre for Archaeology (CAL) during excavations in the area and across other parts of Lisbon — the contemporary works offer a connection between past and present: a respectful glance at what was, and a bold proposal for what might yet be.
The organic, ethereal, and strangely familiar forms of Jéssica Ilfu-Soi's pieces initiate the transition from the everyday to the spiritual. Closer in feel to a divine artefact from a forgotten ancestral religion — or even from a civilisation millennia more advanced than our own — Ilfu-Soi's pieces provoke a dialogue between the physical and the oneiric that leads us to question the very nature of time.
Pedro Dionísio's explorations bring us back to a more earthly plane, though no less evocative. Working with a range of materials, Dionísio tests the limits of ceramics by exposing it to the elements and integrating other organic materials — leaves, stones — in testament to its resilience and capacity for transformation. His pieces blur with the fragments found on site, yet retain their freshness and tenacity, in a dialogue between past and future that feels destined to be eternal.
If the works of Ilfu-Soi and Dionísio carry something timeless within them, the works of Ana Leonor Pinto are an explosion of contemporaneity — complete products of their time. Or are they? The colourful and eye-catching cakes appear, at first glance, celebratory, joyful, and delicious. But the longer we look, the more we begin to notice the signs of decay, of their hollow futility. Without substance, only appearance remains. In this humorous yet sharp critique of a society more concerned with seeming than being, Pinto reflects the fragility of human vanity — in this age as in all those that came before.
Each with their own distinct voice and unique processes for working with form and content, these three young artists present us with a dialogue between an age-old material and the contemporary world.
The ceramic tradition is alive, present, and in very good hands.